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06/06/2003 - 08h22
Floresta absorve carbono, diz estudo
CLAUDIO ANGELO Editor-assistente de
Ciência da Folha de S.Paulo
Para quem ainda consegue
ser otimista em relação ao clima do planeta, aí vai uma boa notícia:
nas últimas duas décadas, as mudanças climáticas alimentaram o
crescimento da floresta amazônica, que absorveu milhões de toneladas
de carbono da atmosfera. A conclusão é de um estudo publicado hoje
por um grupo dos EUA.
Analisando imagens de satélite
produzidas entre 1982 e 1999, o grupo liderado por Ramakrishna
Nemani, da Universidade de Montana, descobriu que a produtividade
primária cresceu 6% no planeta inteiro nesse período. E a maior
contribuição vem justamente da Amazônia: 42%.
"Produtividade
primária" é um nome complicado para definir o crescimento das
plantas. Com mais luz, água e calor, elas fazem mais fotossíntese,
absorvendo carbono (na forma de gás carbônico, ou CO2) e
fixando-o na forma de folhas, caule e raízes.
Um aumento de
6% da produtividade primária do planeta significa que as plantas
retiraram da atmosfera nada menos que 3,4 bilhões de toneladas de
carbono. Só a Amazônia teria sido responsável pela absorção de 1,4
bilhão.
"O estudo mostra uma tendência, da qual já
desconfiávamos, de que a Amazônia é um grande limpador da
atmosfera", afirmou o biólogo Paulo Moutinho, do Ipam (Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia). Ela estaria absorvendo
CO2 lançado no ar por atividades humanas, como a queima
de petróleo e derivados.
As respostas da floresta ao
aquecimento global e a quantidade de carbono que ela "sequestra" têm
gerado debates acalorados entre os cientistas. Até recentemente,
achava-se que o efeito estufa (a retenção do calor na atmosfera da
Terra por uma capa de gases, como o CO2) fosse estimular
o crescimento das plantas só nas florestas frias e temperadas do
hemisfério Norte. Nas quentes florestas tropicais, o aumento de
temperatura não faria diferença.
A análise do grupo de
Nemani, publicada hoje na revista "Science" (http://www.sciencemag.org/), considerou as duas
outras variáveis que os primeiros estudos ignoraram: água e
luz.
"São as mudanças no regime de chuvas e na cobertura de
nuvens que importam na zona tropical", disse Nemani à Folha,
por e-mail.
No caso da Amazônia, segundo o pesquisador
indiano, o aumento da radiação solar devido à mudança na cobertura
de nuvens sobre a floresta causou o crescimento acelerado da
vegetação.
"É impressionante como isso bate com nossas
medições", disse Antônio Nobre, pesquisador do LBA (Experimento em
Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), que mede o fluxo
de carbono na floresta com a ajuda de sensores em torres.
As
medições feitas por Nobre indicam que a Amazônia seja um "ralo" de
carbono atmosférico. Ele diz, no entanto, que o estudo americano tem
uma discrepância, porque fala em redução na cobertura de nuvens, mas
não nas chuvas. "Uma possibilidade intrigante é que a Amazônia
esteja mais chuvosa à noite", afirma Nemani.
Mas quem encara
o novo estudo como um presente de Dia Mundial do Ambiente,
comemorado ontem, pode guardar a champanhe: ninguém sabe até quando
esse sequestro de carbono vai durar. Dados do LBA indicam que, com o
aquecimento global, no futuro a floresta tende a ficar mais
inflamável. "Devemos reduzir emissões de gases-estufa, em vez de
procurar jeitos de sequestrá-los", conclui Nemani.
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